Foi um choque quando a encontrei de cabelo curto. Fazia um bom tempo em que ela reclamava que cabelos compridos envelhecem a mulher, que ela cansou do visual, que demorava demais para ajeitar e tal, reclamações femininas cotidianas. Sempre gostei de cabelos compridos e reclamo se ela fala em cortar, não quero perder aquela cabeleira em que me emaranho entre lençóis. Mas aquele dia ela acordou com uma expressão misteriosa de quem tramava com o FBI. Foi à sua cabelereira e pá! Voltou com os cabelos um pouco abaixo do lóbulo da orelha. Não gostei e reclamei com ela, que parecia uma guriazinha, cadê aquele mulherão que eu tinha, emburrei e sentei na sala. Ela sorria disfarçadamente e continuou sem levar em consideração meu beiço.
Ela estava na faixa dos quarenta anos e reclamava continuamente que estava com aparência de velha, que cabelão é mania adolescente, que dava muito trabalho, enfim, um rosário de reclamações. Eu, lógico, achando lindo. Ela tem um grave defeito ou qualidade, depende do ponto de vista: quando quer fazer, faz, não pede opinião, não debate, nada disso, vai lá e faz. Ponto final e sem reclamações. Estava insatisfeita com seu visual e mudou, sabia que se pedisse minha opinião diria que estava bem como estava. Enfim, depois que cortou, não pude fazer mais nada a não ser aceitar, cabelos crescem, afinal. Ela argumentou, em um dia derradeiro do meu estado emburrado que meu despeito era porque ela estava aparentando menos idade e que isso me incomodava. Bobagem, bem capaz. Os dias foram passando e seus cabelos curtos encaracolavam suavemente em torno das orelhas, emoldurando seu rosto lindo e a deixando com um ar juvenil. Fui observando mais e percebi que realmente ela havia remoçado vários anos, principalmente com seus cachos molengos e rebeldes que inspiravam molecagens em mim.
Eu admito, queria enredar meus dedos naqueles cachinhos mimosos que caiam pela sua face e roçavam de leve sua nuca. Preciso concordar que parecia uma ninfa, quase etérea com seu visual novo. As calças jeans ficaram mais justas de repente e seus seios estavam mais salientes sob a blusa. Realmente, ela estava mais apetitosa do que antes, tinha a impressão de que uma jovem mulher aterrisou em minha cama. Impossível não resistir ao rosto emoldurado pelos cachos. Impossível resistir ao sorriso iluminado que ela ostentava, não sei se por perceber minha capitulação ante seu novo corte de cabelo ou se era eu quem a via mais linda. Difícil saber, mas a verdade é que minha mulher é linda de qualquer jeito, pelo menos aos meus olhos.
Percebia que os homens a olhavam mais, que mais pescoços se torciam ao vê-la. Percebia que ela estava mais confiante e eu fui tomado de um ciúme maluco, preciso concordar, ela estava uma menina e eu me sentia mais velho. Parecia que suas nádegas estavam mais arredondadas, todas as minhas fantasias malucas estavam voando em meu cérebro. Tudo por causa de um corte de cabelo. Uma noite enquanto ela dormia, apreciava seu perfil e aqueles cachinhos espalhados no travesseiro. Nisso, ela acordou e olhou para mim com os olhos enevoados pelo sono, resmungando o que eu fazia acordado. Respondi que a beleza dela dormindo era irresistível e que seus cachos espelhados eram lindos. Ela sorriu e me beijou, evaporando com o calor do seu corpo meu ciúme, meu medo e qualquer outra insegurança que pudesse ter.
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